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Jorge Biancchi revela os bastidores da Copa

Com 21 anos de rádio, o repórter Jorge Bianchi acumula no currículo a cobertura de quatro Copas do Mundo, com a do Brasil, que está se encerrando hoje. Ele é o único profissional baiano que está desde o começo do mês de junho na Granja Comary em Teresópolis/RJ, acompanhando todos os treinamentos da Seleção Brasileira, para a Rádio Sociedade de Feira de Santana e toda a Rede de Rádio Capuchinhos, que conta com mais de 20 emissoras na cobertura do mundial. Mesmo ainda em território carioca, Jorge Bianchi concedeu entrevista exclusiva ao jornal Folha do Estado, onde fez um balanço sobre a Copa do Mundo, além de revelar detalhes do seu trabalho de acompanhamento do Brasil. Confira:

Folha do Estado - O senhor participa da sua quarta cobertura de Copa do Mundo. O fato de ser no Brasil faz com que este mundial seja diferente dos demais em que sentido?

Jorge Bianchi - Não dá para dissociar esta questão da emoção pessoal porque para o cronista esportivo já é algo marcante, o fato de cobrir uma Copa do Mundo e você fazer um mundial dentro do seu país é algo maravilhoso. O Brasil voltou a sediar uma competição destas 64 anos depois e isso é algo significativo para qualquer brasileiro e daí a razão de tanta emoção ao ouvir a execução do hino nacional nos estádios, de vibrar e sofrer com a Seleção Brasileira porque quem está vivenciando isso hoje, no futuro vai ter muita história para contar. No meu caso, o privilégio ainda é maior porque sou a única voz baiana a estar presente aqui na Granja Comary acompanhando o dia a dia da Seleção Brasileira.

F.E - Sabemos que uma Copa do Mundo não se resume apenas ao acompanhamento de treinos, atividades ou mesmo transmissões de jogos. Muitos estão afirmando que a Copa está mais difícil de se cobrir aqui do que em outro país. Como o senhor tem analisado esta questão?

J.B - A ideia que as pessoas têm de um modo geral é de que tudo fica mais fácil pelo fato da Copa ser aqui, porém digo que realmente é mais complicado para se fazer porque com as distâncias maiores e o transporte não sendo o ideal, o deslocamento dos profissionais é bem mais complicado. Outra coisa é de que os direitos de transmissão que são adquiridos dão a emissora apenas a condição de fazer a transmissão dos jogos, ou seja, fato de ter os direitos não credencia uma rádio a estar nos estádios. Para que isso aconteça cabe ao veículo comprar posições de comentarista nas praças esportivas. Por isso é que quando a emissora faz este investimento, o faz para jogos da seleção do país, quando dá. Quando não dá tem mesmo é que fazer a transmissão off tube, como está acontecendo com mais de 80% das emissoras brasileiras que estão cobrindo a Copa.

F.E - Então não existe nenhuma facilidade de se cobrir a Copa do Mundo no Brasil?

J.B - Claro que tem. Por exemplo, para nós, cronistas brasileiros, não existe nenhum tipo de dificuldade com relação ao horário dos jogos, a adaptação de clima e de alimentação. São aspectos que você deve levar em conta, principalmente quando está em outro país, como eu estive na França, no Japão e na África do Sul. Não há pessoa que em determinado momento não tenha dificuldades com a alimentação, as poucas horas que se tem de sono, com o fuso-horário, com adaptação ao clima, aos costumes de cada lugar e isso está sendo sentido por quem veio ao Brasil participar desta festa que é a Copa do Mundo.

F.E - Como está sendo a sua rotina de trabalho aí em Teresópolis//RJ no acompanhamento do dia a dia da Seleção Brasileira?

J.B - É uma rotina puxada, que diariamente ultrapassa as 12 horas de trabalho. Normalmente, já por volta das 6h estou começando a trabalhar porque tenho participação ao vivo nos diversos programas das emissoras que compõem a Rede de Comunicação Capuchinhos, sem falar na participação constante nas transmissões de diversos jogos feitos pela Rede. Além disso acompanho todas as atividades diárias da Seleção Brasileira para produzir boletins e tudo isto é fruto de muito trabalho, que só termina por volta das 22 horas, quando faço a minha última participação no programa "No cenário da Copa", da Princesa FM, apresentado pelo Elsimar Pondé e que está sendo retransmitido pelas demais emissoras que compõem a Rede Baiana de Rádio e Rede de Comunicação Capuchinhos.

F.E - No dia a dia, como se dá o contato com os jogadores e a comissão técnica da Seleção Brasileira?

J.B - Existe um grande esquema de organização por parte da CBF para que possamos acompanhar as atividades. Normalmente assistimos aos treinamentos num local privilegiado, porém isolado, ou seja, não há contato direto com nenhum componente do Brasil. Isso só acontece, quando depois dos treinamentos são realizadas as entrevistas coletivas, quando um atleta ou mesmo o treinador é sabatinado pelos jornalistas e mesmo assim ninguém fica dando atenção por muito tempo porque acaba sendo uma relação distante A gente até consegue tirar fotos com os atletas, mesmo porque eles não se negam, porém a conversa é a mínima possível.

F.E - Então pode se dizer que o trabalho de lidar com atletas e comissão técnica da Seleção Brasileira foi mais complicado do que em outras Copas do Mundo?

J.B - Com certeza, mesmo porque em outras oportunidades tinha a famosa zona mista, onde os atletas e integrantes da comissão técnica iam passando e os jornalistas, de acordo com as suas habilidades, conseguiam conversar com todos, até de maneira exclusiva. Porém isto não se repetiu aqui no Brasil e as dificuldades para se conseguir uma entrevista ficaram piores. Para se ter uma ideia, nós estamos aqui acompanhando as atividades, mas para participar das coletivas, precisamos fazer um credenciamento para ter acesso ao local das entrevistas. Uma vez lá, somos posicionados e os entrevistados ficam numa bancada respondendo às perguntas feitas pelos cronistas que têm um microfone volante à sua disposição. É muita gente participando e para você emplacar uma pergunta é muito complicado, mesmo porque eles dão preferência aos profissionais mais conhecidos. Acho até que a CBF poderia fazer um sorteio para que houvesse um rodízio de profissionais e todos assim tivessem a oportunidade de fazer seu trabalho.

F.E - E o contato com profissionais de outros Estados, de outros países, como acontece?

J.B - Esta é a melhor parte de participar de uma cobertura porque trocamos informações, ideias, aumentamos o nosso conhecimento não só sobre o futebol, mas sobre outras culturas também. É o maior aprendizado que podemos ter, sem falar que é bacana você reencontrar pessoas que não se vê há muito tempo, além de fazer novas amizades. As oportunidades são as mesmas de você entrevistar e ser entrevistado, não há privilégios até porque todos estão no mesmo barco.

F.E - Hoje é o encerramento da Copa do Mundo no Brasil. Qual a sua avaliação sobre a realização do evento aqui no país?

J.B - Antes da Copa começar, muita gente dizia que o Brasil não tinha condições de sediar um mundial, que por conta das manifestações ocorridas no ano passado durante a Copa das Confederações até mesmo a Fifa estaria com "um pé atrás" com este mundial, mas tudo isto foi desfeito na hora que a bola rolou. Tudo acontecem dentro da normalidade, não houveram maiores incidentes, os estádios estiveram a altura do que se exige para uma Copa do Mundo e isso é bom porque se quebrou vários paradigmas de que países de economia inferior não podem organizar uma Copa do Mundo. Acho que depois desta Copa, outros países, até mesmo da América do Sul vão se planejar para abrigar a competição como já aconteceu no Chile e na Argentina. Não são somente os europeus que sabem fazer Copa do Mundo.

F.E - Mas muitos defendiam a tese do Brasil não ter condições de sediar uma Copa por conta dos problemas estruturais. Então definitivamente esta ideia caiu por terra?

J.B - Os problemas estruturais existem em qualquer lugar e ocorrem por uma série de fatores, que transcendem a atualidade, ou seja, existem questões históricas que podem ser resolvidas, mas não seria num prazo imediato por conta da Copa do Mundo. Por exemplo, o país tem dimensões continentais e lógico que para se administrar a questão do transporte é bem mais complicada do que num país de dimensões bem menores. Outros problemas com a saúde e a segurança não seriam resolvidos de uma hora para outra e logicamente é bem mais tranquilo se fazer uma competição deste porte em um país estruturado em todos os sentidos. Por conta disto o trabalho pode ser bem menor, mas não é por isto que vão deixar de ocorrer problemas. Aqui todos ficaram preocupados com os estádios que só ficaram prontos em cima da hora, com a questão das manifestações ocorridas durante a Copa das Confederações, mas na hora H mesmo, a bola rolou e a Copa desenvolveu sem maiores complicações. O certo é que até mesmo os dirigentes da Fifa já não estavam fazendo mais tantas críticas e alguns deles já admitem que está a Copa das Copas.

F.E - Que análise técnica o senhor faz da competição?

J.B - Acho que foi boa, apesar de equipes de peso como Espanha, Itália, Inglaterra e Uruguai terem saído logo nas primeiras fase. Por outro lado tivemos seleções que surpreenderam pelo bom futebol apresentado como foram os casos da Colômbia, da Costa Rica e o Chile, que deu muito trabalho ao Brasil. Aliás quero ressaltar esta questão porque não foi só a seleção brasileira que teve trabalho com times considerados inferiores tecnicamente. Vimos o sufoco da Alemanha diante da Argélia, da Argentina com a Suíça e da França com a Nigéria e da Holanda que quase foi eliminada pela surpreendente Costa Rica. No futebol, não tem ninguém mais bobo e a prova disso é nível que as seleções apresentaram nesta Copa: apresentaram boas táticas, sem falar em atletas muito interessantes.

F.E - E a Seleção Brasileira? O que dizer sobre esta campanha da equipe na Copa do Mundo?

J.B - A equipe já começou a mostrar o que seria logo no primeiro jogo, quando venceu a Croácia, mas não convenceu e depois foi assim nas outras partidas, até mesmo com aquelas equipes consideradas "presas fáceis". A tragédia que aconteceu com a Alemanha poderia ter ocorrido antes, por exemplo, se encarássemos a Holanda nas oitavas-de-final. Tudo isto é reflexo da falta de organização, de planejamento e, por que não dizer de treinamentos. Já fiz outras Copas e esta foi a que a Seleção menos treinou. Ora, nós víamos graves problemas de posicionamento no time que poderiam ser corrigidos nas atividades, mas os treinos eram insuficientes, o que inclusive foi alvo de muitas críticas por parte dos jornalistas que estão aqui acompanhando o dia a dia da equipe. Em off, conversávamos com os atletas e questionávamos isso, sendo que alguns deles até concordavam com o nosso ponto de vista, mas nada podiam fazer porque quem determina é o técnico. Para completar, ainda o treinador Luiz Felipe Scolari tratando a todos com uma arrogância sem tamanho e aí juntando tudo isto só poderia terminar de maneira fatídica como foi os 7 x 1 aplicados pelos alemães. Agora o que nos resta é juntar os cacos e fazer uma renovação completa, um trabalho melhor planejado, se quisermos voltar ao topo dos melhores do mundo.

F.E - Fora esta Copa do Mundo no Brasil, qual foi a outra que mais lhe marcou?

J.B - Sem sombra de dúvidas, a de 1998 na França por ter sido a minha primeira experiência internacional. Eu tinha apenas cinco anos radialista e na Rádio Sociedade havia chegado um ano antes. Foi maravilhoso porque estive ao lado de valorosos companheiros como com Dilson Barbosa e Jair Cezarinho, sem falar nos demais colegas da Rádio Sociedade da Bahia, nomes consagrados como Djalma Costa Lino, Silvio Mendes, Silva Rocha, o saudoso Armando Oliveira, Antônio Vieira e Florisvaldo Nascimento Melo, além dos companheiros do Rio de Janeiro e São Paulo. Foi uma experiência única, que muita gente até não acreditava, mas graças a Deus fiz um bom trabalho.

F.E - É verdade que por conta do trabalho da França, o senhor recebeu propostas para trabalhar em Salvador?

J.B - Não só em Salvador, mas em São Paulo também. Na época, recebi a proposta da Rádio Sociedade da Bahia, mas como sempre fui muito ligado a minha família eu pesei esta situação, além do que a diferença salarial era pequena em relação a Feira de Santana. Não me arrependi desta decisão, mesmo porque depois disto vieram outras conquistas na minha vida e graças a Deus, ao meu trabalho estou bem e muito feliz mesmo com o que eu faço.

F.E - Com a sua experiência internacional, ainda dá para sentir um "friozinho" na barriga na hora de cobrir uma Copa do Mundo?

J.B - Eu cheguei a comandar o departamento esportivo da Rádio Sociedade em 2004 deixei a linha de frente para me dedicar a outros projetos na minha vida. Porém uma vez cronista, sempre cronista. Ou seja, nunca deixei de acompanhar futebol e fazer Copa do Mundo é algo trabalhoso, mas que me dá muito prazer. Não poderia deixar de agradecer a pessoas como Jair Cezarinho e Dilson Barbosa, que foram muito importantes neste processo, bem como a direção da Rádio Sociedade de Feira por sempre acreditar no meu trabalho. 

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